PLANFER - Situação trazida em 17/01/2011 pela
Revista Veja


 
O teorema do fisiologismo

Revista Veja - 17/01/2011


Deputado indica correligionários para dirigir órgão público responsável por gerir recursos de aposentados. Resultado: o dinheiro sumiu

Daniel Pereira

Às vezes é difícil entender por que partidos consolidados, como o PT e o PMDB, se envolvem em disputas sangrentas por cargos aparentemente sem muita relevância. Quando se tem certos dados em mãos, fica mais fácil. O Serviço Social das Estradas de Ferro (Sesef) é um órgão do Ministério dos Transportes que, desde o fim da década de 80, administra o Plansfer, um plano de saúde de 13 000 ferroviários, na maioria aposentados. Em 2003, depois da posse do ex-presidente Lula, o Sesef foi entregue aos cuidados de diretores indicados pelo deputado petista Carlos Santana, do Rio de Janeiro. É simples destrinchar a equação do parlamentar. O “x”: a maioria dos ferroviários mora no Rio de Janeiro, e, portanto, tem-se ali um atraente baú de votos. O “y”: de olho em dividendos, a ação número 1 da turma do deputado após a nomeação para o cargo foi administrar uma dívida de 55 milhões de reais que o Sesef recebeu do governo federal, recursos imediatamente transformados em um fundo de reserva que deveria garantir o plano de saúde dos ferroviários por muitos e muitos anos. O resultado de “x” + “y”: nesta semana deve ser decretada a liquidação do Plansfer, atolado,em denúncias de irregularidades e dívida que ultrapassam 40 milhões de reais.

O caso Sesef revela com precisão matemática o que quase sempre se esconde na retaguarda da batalha entre os partidos por determinados espaços do governo. O deputado Carlos Santana, um companheiro de sindicalismo do ex-presidente Lula, pediu e levou o controle do Sesef. Para os principais cargos de direção do órgão, nomeou colegas de luta, sindicalistas como ele. Foi seu bom trânsito no governo, em 2003, que garantiu ao petista o direito de administrar o fundo de saúde e também fez com que seus companheiros mantivessem o cargo no segundo mandato do ex-presidente. Os ferroviários levaram algum tempo para compreender a exata dimensão do interesse da companheirada no Sesef. Segundo denúncia apresentada ao Ministério Público e transformada em inquérito na Justiça do Rio de Janeiro, o tal fundo de saúde foi usado para financiar as campanhas eleitorais de Carlos Santana. Intriga de peemedebistas, diriam os petistas. Não nesse caso. O autor da denúncia é Osmar Rodrigues, filiado ao PT do Rio, ex-colega do deputado e ex-presidente do conselho de usuários do Plansfer. Ele relata que o grupo político de Santana pagou festas, shows e até financiou obras irregulares coma verba do plano de saúde. “O Sesef foi aparelhado com pessoal ligado ao meio sindical e ao PT. Foi montado um sofisticado esquema que trabalhava para os sindicatos e candidatos do grupo político do deputado Carlos Santana”, acusa Rodrigues.

Entre as dezenas de irregularidades descobertas, há algumas bizarras, como a contratação de um eletricista por 250.000 reais e a encomenda de milhares de cartões de benefícios, que depois se revelaram uma fraude, às vésperas da campanha eleitoral. “Minha vida pública é marcada pela defesa dos ferroviários. Seria uma incoerência minar o plano. Não vou entrar em disputa política”, explica o parlamentar. Quanto ao dinheiro desviado, Santana diz que desconhece o assunto. Sobre as festas, não pode sequer negar sua participação. Há um acervo de fotografias tiradas por seu irmão, Claudionor, especialmente contratado pelo Sesef para o trabalho. Em janeiro de 2008, a Agência Nacional de Saúde (ANS) instaurou um regime de “direção fiscal” no Plansfer. Essa medida ocorre quando o órgão regulador detecta problemas econômico-financeiros nas operadoras. Além de torrar os 55 milhões de reais do fundo de reserva, a direção petista do Sesef acumulou uma dívida de 40 milhões com hospitais e laboratórios. “A gestão anterior foi duplamente criminosa, porque, além de gastar a reserva técnica e deixar uma dívida milionária, prejudicou um plano que atende idosos, que dificilmente terão condições de mudar para outra operadora”, diz Jorge Moura, o novo diretor executivo do Sesef, que assumiu o cargo no fim de 2008 e que, desde então, tenta convencer o governo a impedir o fechamento do Plansfer. Em 2006, quando comandava a estrutura, Carlos Santana foi reeleito. Em 2010, longe dela, faltou voto. Agora, no novo governo, o parlamentar pleiteia a direção da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU). O fisiologismo sobrevive assim - como praga.

 
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