O paciente bem informado

por Ethevaldo Siqueira

Pesquisas mundiais comprovam que, ao longo das duas últimas décadas, as pessoas passaram a dispor de um volume crescente de informações e de conhecimentos sobre questões básicas de saúde, higiene, alimentação e prevenção de doenças. Surge, assim, a figura do paciente informado, um cliente capaz de dialogar com seu médico ou clínico, nas mais variadas especialidades.

Os meios de comunicação, em geral, e a internet, em particular, transformaram-se na principal fonte de informação sobre saúde para a maioria das pessoas nos últimos 20 anos. Essa evolução positiva muda as relações médico-paciente, pois o novo paciente não quer apenas dialogar e argumentar, mas conferir seus conceitos e pontos de vista com o diagnóstico nos consultórios médicos.

Diante desse quadro, as relações entre médico e paciente deveriam levar em conta essa mudança, pois o paciente tem noções básicas sobre higiene, alimentação, causas e evolução de muitas doenças, medicina preventiva e, muitas vezes, conhece os mais modernos recursos da tecnologia para diagnosticar doenças, como tomografia, ressonância magnética, ultrassonografia e outros temas.

Não há, portanto, a menor dúvida de que o paciente informado pode colaborar de forma valiosa para melhores diagnósticos e tratamentos mais efetivos. Desde ele seja, realmente, bem informado. É isso que a prática nos prova todos os dias.

Para o trabalho do clínico e para a própria medicina essa cultura básica do paciente constitui um avanço sob todos os aspectos. Por isso, deveria ser um objetivo permanente dos programas de saúde pública. Surpreende-nos, portanto, que governos, autoridades de saúde pública e universidades não tenham reconhecido há mais tempo esse novo quadro nem criado fontes seguras de informação médica.


Resistência

Outro problema nessa área é o fato de alguns médicos ainda revelarem grande dificuldade no relacionamento com o novo paciente, mesmo aquele bem informado. Esses médicos parecem sentir-se incomodados, enciumados, diante de um paciente informado, passando a tratá-lo como competidor.

É um problema semelhante ao da reação comum do professor diante de alunos muito mais informados do que ele sobre novas tecnologias e que revelam muito maior familiaridade no uso do computador e da internet.

Para o paciente, o maior valor da informação correta talvez se situe no campo da medicina preventiva, especialmente no desenvolvimento de hábitos saudáveis, de higiene e alimentação.


Fontes confiáveis

Não há dúvida de que o paciente mal-informado é vítima de fontes de informação pouco confiáveis, até porque, em sua maioria, a população não tem capacidade crítica nem critério de aferição da qualidade das informações que recebe.

O mais grave dos problemas da má informação, contudo, está na desonestidade de sites que, para vender medicamentos, atraem pacientes incautos com promessas absurdas, divulgam conceitos inteiramente falsos sobre obesidade, disfunções sexuais, câncer, doenças degenerativas e outras.


Selos e site-padrão

O ideal seria a utilização de um selo médico pelos sites que merecem o aval científico e ético de universidades, de hospitais e de entidades especializadas, reconhecidamente sérias, capazes de garantir a qualidade da informação. Só assim poderemos ampliar os benefícios da informação correta e isenta ao paciente e ao médico.

Imagine os bons serviços que poderão prestar os grandes portais sobre saúde e medicina, com conteúdo plenamente confiável fornecido pelas melhores universidades, para orientação de cada cidadão.

Vale a pena conhecer alguns exemplos desses portais. Se você nunca ouviu falar do www.Mediapedia.com, em inglês, procure avaliar o que é uma excelente fonte de informação para o cidadão comum. O conteúdo desse portal resulta de um trabalho altamente colaborativo das Universidades de Harvard, MIT, Berkeley, Stanford e Michigan, que se uniram para oferecer melhor contribuição a milhões de cidadãos que buscam na internet a informação sobre saúde e medicina de que necessitam. Com o mesmo nome, existem pelo menos duas outras Medpédias, a www.Medpedia.com.br e a www.Medpedia.pt, em português, para leitores do Brasil e Portugal.


Caso extremo

A informação em excesso também pode ser um problema. É o caso do paciente que acaba sentindo-se mais preparado e mais competente do que os médicos especialistas, tanto na determinação do diagnóstico como no tratamento ou cirurgia.

Na realidade, há pacientes que recolhem, sem orientação científica adequada, grande massa de informações em suas leituras e consultas à internet. O dr. Leonardo Diamante, especialista em informática médica, conta o caso de um paciente que chegou ao consultório de um especialista já com a decisão de fazer uma cirurgia e já tinha até escolhido uma das técnicas da operação. E como o médico discordou de suas opiniões, o paciente levantou-se e disse: “O senhor não é o médico que eu procuro. A técnica cirúrgica que o senhor utiliza é velha, inadequada e ineficaz”.

É claro que esses casos não invalidam os benefícios da informação médica correta para a maioria dos pacientes, pois o paciente bem informado conhece melhor seu corpo, sua saúde, seu potencial e suas limitações.

Está na hora de trabalhar nessa direção.


Fonte: Estadão, 05/09/2010

 
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